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PROF. JOÃO BATISTA FREIRE DA UNICAMP
Deixem as crianças brincar


10/10/2002 - 15:00

João Batista Freire

Sou do tempo em que o Santos, de Pelé, Dorval, Mengálvio, Tite, Coutinho, Gilmar, dava espetáculos na Vila Belmiro e eu, que morava no Morro São Bento, descia as ladeiras para ver as tabelinhas de Pelé e Coutinho. Onde foi que aprenderam a fazer mágica? Esta era a pergunta que me fazia quando estudava Educação Física. Hoje sei a resposta: aprenderam brincando de futebol, brincando nas ruas, nas várzeas, em qualquer pedacinho de chão, chutando qualquer coisa que rolasse.

Se essa forma de aprender foi tão boa para craques como Pelé, Zico, Maradona e Rivelino, por que não seria boa também para as crianças que procuram as escolinhas de futebol? Que diabos está acontecendo que os craques que assumem a função de professores nessas escolinhas não deixam as crianças fazerem o que eles fizeram quando eram meninos?

Sou professor universitário, fiz Mestrado, Doutorado, Livre-Docência, pesquisei bastante, orientei dezenas de teses, e concluí que não há nada melhor para ensinar que a brincadeira, que a própria cultura popular.

Se as crianças pudessem brincar nas escolinhas, teriam uma oportunidade bem mais rica de aprender que contornando cones e obedecendo ordens para fazer gestos mecânicos. Futebol é jogo, é brincadeira, é diversão e arte. Não existe a menor possibilidade de formar um craque de futebol quando as crianças são obrigadas a se comportar como se fossem soldadinhos obedientes.

A rica pedagogia de rua que ensinou brasileiros a jogar futebol melhor que seus inventores, os ingleses, pode ser levada para a escola. Não temos que fazer das escolinhas de futebol ruas, mas podemos ensinar seguindo os métodos que ensinaram nossos craques. Jogar se aprende jogando. O melhor jogador de futebol é o que sabe jogar, que sabe improvisar, que sabe se divertir quando joga, que tem liberdade para colocar em prática sua arte. Bastaria que, com método, organizássemos os conteúdos da nossa rica cultura popular nos ambientes das escolinhas.

Todos viram o que Rivaldo e Ronaldinho, mesmo vindo de contusões sérias, conseguem fazer numa Copa do Mundo. Eles são daqueles jogadores, cada vez mais raros, que se negam a jogar como robôs ou submissos a todos os esquemas táticos. Não abrem mão de jogar brincando, se divertindo, fazendo do futebol uma festa, para eles e para nós. Deveríamos olhar com mais atenção para eles e para o modo como aprenderam a jogar, e procurar levar para nossas escolinhas de futebol a pedagogia que tão bem os ensinou. O futebol tem, no Brasil, sua sabedoria própria, uma sabedoria popular, típica da cultura brasileira. Acredito que todos temos muito a aprender com ela, inclusive as Universidades.

 
 
 
 
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