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ZÉ MÁRIO: CATEGORIAS DE BASE NO BRASIL


31/10/2002 - 18:00

A minha formação futebolística é oriunda das "peladas de rua" e no Futebol de Salão, hoje chamado de FUTSAL.

Desde pequeno fui acostumado a ter contato com uma bola. A dificuldade em jogar com uma bola oficial era grande pela idade que tinha. Elas eram pesadas demais para a minha perna. É bom lembrar que não tínhamos a facilidade de hoje com vários tipos de bola para cada idade. Naquele tempo ou era a bola oficial, ou era uma bola de borracha dura que quando nos atingia depois de um chute do adversário saíamos nos contorcendo de dor e deixava uma marca vermelha na pele, ou era a "bola de meia". Depois é que começaram a aparecerem as outras bolas como a da Estrela, a bola Pelé e a bola Rivelino.

No meu tempo fazíamos "linha de passe" no alto sem a bola tocar no chão e ainda com "bola de meia". Antes de chutá-la ao gol deveríamos dar, pelo menos, três toques com a bola no alto. Se, antes dos três toques, a bola tocasse no chão, a contagem era recomeçada para depois poder chutar ao gol. A cada três gols feitos, o goleiro permaneceria no gol mais três gols. Após três chutes para fora era trocado o goleiro. Hoje com bolas maiores e mais confortáveis, a linha de passe é feita com a bola rolando no chão e depois de algumas trocas de passes é possível chutar forte sem piedade para com o goleiro.

Onde está o controle de bola? Onde está o desenvolvimento dos fundamentos?

Outra coisa que acho que contribuiu muito no meu desenvolvimento foi o desafio de jogar contra jogadores com a idade mais avançada que a minha. Para eu ganhar a vaga tinha que me esforçar e ser melhor do que os outros que eram mais velhos do que . Era sempre um desafio. Eu, pelos meus 13 anos, já jogava contra garotos com 18 ou dezenove anos e, às vezes, até mais. Portanto para jogar era preciso saber e se esforçar bastante para ter um lugar no time. A concorrência era grande pois existiam muitos garotos bons de bola.

Joguei muita bola no meio da rua primeiro no paralelepípedo e depois no asfalto. Fazia tabelinha com a parede do muro das casas, com as árvores, com o meio-fio (guia para os paulistas) e me escondia do adversário atrás das árvores para receber a bola livre. Aos sábados eu ficava jogando bola das 8 da manhã até ao escurecer, já que era folga no colégio. Muitas vezes começava jogando sozinho, depois começavam a chegar os outros garotos e também muitas vezes terminava sozinho de novo.

O "Futebol de Salão" também foi uma boa escola. Comecei jogando no Magnatas Futebol de Salão e depois fui para o Vila Isabel Futebol de Salão. Aprendi muito com jogadores como Aécio, Serginho, Adilson, Celso, Gizo. O Pelé foi o rei do campo e o Serginho foi o rei do salão. Jogava muito e eu sempre procurei imitá-lo.

Como muitos procuraram imitar o Pelé e ninguém conseguiu, eu também não cheguei perto do Serginho. Mas foi uma escola excelente para a minha carreira de jogador profissional.

Antigamente os garotos já chegavam nos clubes praticamente preparados para competir justamente porque já competiam nas ruas, nos campos de bairro, nos times de esquina. A primeira condição para jogar nesses times era que soubessem jogar um bom futebol. O que era isso? Tocar a bola com suavidade, driblar, fintar, ter criatividade, jogar com felicidade e ter malícia.

Hoje o que acontece com os meninos? Chegam no clube e ficam jogando sempre dentro da mesma idade. Doze anos joga contra 12 anos, 15 anos joga contra 15 e assim por diante. Na grande maioria só após 17 ou 18 anos é que começam a enfrentar garotos com mais idade. E aí começam os problemas com os desafios do futebol. Primeiro porque já é uma competição oficial onde a exigência é grande, segundo que a diferença física também é ser grande.

Para ilustrar, vou contar um episódio que aconteceu comigo quando dirigi o Botafogo do Rio de Janeiro. O Neca, treinador do juvenil não agüentava mais o Luisinho.

Todo dia tinha discussão entre o Luisinho e o Neca ou entre o Luisinho com outros jogadores. Conversei com o Neca e ficou combinado que o Luisinho ficaria treinando com os Profissionais durante a semana e que na sexta-feira ele faria o coletivo com o juvenil e jogaria a partida pelo campeonato. No primeiro dia de treinamento do Luisinho estávamos treinando drible e finta onde um jogador enfrentava o outro terminando com finalização. O Luisinho saiu com a bola para enfrentar o Gaúcho, jogador já experiente que tinha vindo do Vasco. Na primeira vez o Gaúcho deu uma entrada nele e derrubou-o. Na segunda a mesma coisa. Porém na terceira vez, ainda contra o mesmo Gaúcho, o Luisinho já adaptado com a diferença de corpo, deu um drible no Gaúcho que ficou paralisado. Foi, para mim, um exemplo do desafio que ele teve que enfrentar diante do Gaúcho. A pouca experiência e o porte físico desproporcional obrigou o Luizinho a usar toa a técnica que ele tinha. E, depois disso, o rendimento dele veio melhorando tanto no juvenil quanto no profissional e foi o grande jogador que todos vimos.

Passando efetivamente a falar do tema em questão, posso, por experiência, dizer que estamos passando por uma crise muito grande no trabalho das categorias de base.

Antes ser técnico de futebol das categorias de base era bem diferente do que se vê hoje. Eles não almejavam a promoção para a equipe principal. Portanto ficavam anos e anos lapidando os jogadores que um dia seriam ídolos. Eles sentiam prazer de dizer que tinham preparado aqueles atletas para serem campeões na equipe principal. Especializavam-se nessas categorias. Hoje, com o desenvolvimento profissional do futebol os técnicos das categorias de base querem subir para as equipes principais. À primeira vista todos vão pensar que eles estão seguindo o desenvolvimento lógico da vida. Procuram um lugar melhor que lhes possa dar um conforto maior para a família deles. Tudo bem. Até acho normal. Só que para isso eles não podem fazer um trabalho de buscar só o resultado como vêem fazendo atualmente. Esse trabalho deve ser de educação esportiva, de desenvolvimento dos fundamentos técnicos do futebol, dos fundamentos táticos e até a busca incessante pela vitória. Essa ordem não deveria estar sendo quebrada mas está sendo. Estão buscando primeiramente a vitória. Estão esquecendo de ensinar ao garoto como eles devem passar a bola, chutar, cruzar, dominar, cabecear, driblar, fintar, ser malicioso, ser alegre, ser educado com o seu adversário, respeitando-o e não cometendo faltas desleais. Aliás inventaram que o time que mais faz falta ganha o jogo e com isso, desde das categorias de base que os atletas já vêem com a intenção de fazer falta em vez de tentar primeiro retomar a bola. Devemos ensinar aos nossos atletas que primeiro devemos sempre pensar em tirar a bola do adversário sem fazer falta. A falta está na regra mas ela deve ser conseqüência da vontade de retomar a bola e não ser a primeira opção da jogada.

Tenho saudades dos treinadores específicos de categorias de base como: Pinheiro no Fluminense, Neca no Botafogo, Alfredo Abrão no Bonsucesso, Célio de Souza no Vasco e alguns outros do Brasil inteiro que não conheci. Eles sim faziam um trabalho bom numa época que os conhecimentos não são como os de hoje.

Quem vê hoje um jogo da categoria infantil fica abobalhado como os técnicos exigem vitória aos garotos. Gritam, xingam, substituem por falhas, xingam os árbitros dando maus exemplos aos comandados, enfim tudo que não poderiam fazer.

Por um lado entendo que os treinadores estão lutando pela sobrevivência, são profissionais. Por outro lado fico decepcionado porque vejo que meninos que poderiam ter um futuro brilhante já estão sendo criados quase que totalmente desvirtuados para o esporte. Quando se vê um atleta, agora já na equipe principal, xingar um árbitro, cometer faltas desleais, não saber se comportar como atleta e nem como pessoa de bem, não relacionamos como foi a formação deles nas categorias de base.

Até os pais dos garotos estão sendo prejudiciais na formação dos atletas. Também eles gritam, xingam os árbitros, brigam com os pais dos garotos dos times adversários, incitam a dar pontapés, xingam o próprio treinador se tiram durante o jogo ou não colocam os filhos para jogar. Também entendo que é a sobrevivência da família. Todos vislumbram um futuro brilhante ganhando milhões de reais no início da carreira e depois milhões de dólares na ida para o exterior.

Com isso perdem a noção de tudo. Da educação esportiva aos princípios morais. Não percebem que, normalmente, apenas 10% a 30 % daqueles garotos vão ter a oportunidade de subir para a categoria superior a deles. A cada subida de categoria 70% a 90% dos garotos são dispensados. Aí vem desilusão, inconformismo e cobrança aos filhos às vezes trazendo resultados psicológicos arrasadores.

O que mais me preocupa nessa hora é que os profissionais que trabalham nessas categorias também não se tocam com esse momento difícil para os garotos.

Normalmente, depois de uma peneira, todos os meninos são colocados sentados no chão e o responsável pela peneira vai ditando os nomes dos que passaram e depois dizem simplesmente: "Os outros que eu não disse o nome, muito obrigado". Fim de papo. Não pode ser assim. Até na hora da dispensa de um menino que chegou para a peneira e não foi aprovado é preciso que haja um cuidado especial e os profissionais de futebol devem se preocupar com esse momento.

Não posso deixar de citar também que os empresários, atualmente, têm contribuído muito para o problema das categorias de base aumentarem.

Todos estão à procura de Ronaldos e Rivaldos. Envolvem os pais e os garotos com promessas maravilhosas para os pais assinarem um contrato com eles, envolvem treinadores e toda a estrutura do futebol. Pressionam dirigentes e treinadores para a escalação de jogadores. Uma coisa que eu não entendo é que o compromisso com os pais dos garotos é unilateral. Eles só ganham. Como? Vou tentar explicar como eu vi funcionar esses contratos entre pai do jogador e empresários. Os empresários estão observando os treinamentos e os jogos dos clubes e aí um garoto, preparado pelo clube, se destaca e, imediatamente, os pais desse garoto é contatado pelo empresário para assinar um contrato. Normalmente esse contrato é bem simples até porque a grande maioria dos pais é bastante humilde e não entenderia nada de mais complexo. A base do envolvimento dos pais pelos empresários é o montante de dinheiro que é colocado na conversa do tipo: "O seu filho vai ser vendido por tanto, ele vai receber tanto e eu posso arranjar mais ainda. Vou adiantar R$5.000,00. Veja o Ronaldo. Seus empresários é que o colocaram nessa posição de destaquee ele, Ronaldo, ficou rico". E aí vai a conversa de envolvimento. Falar em quantias altas para famílias humildes, que vêem no sucesso do filho, a saída de deixar de passar fome, fica fácil de envolvê-los.

Nenhum contrato fala do acompanhamento psicológico, social ou cultural. Nenhum contrato fala do amparo ao garoto que o empresário deve ter com o ele nas horas difíceis. Nada disso. É só lucro.

É bom frisar que isso acontece com 80% dos empresários. Há alguns que são diferentes e até prestam uma boa acessoria.

O trabalho dos profissionais das categorias de base é árduo. Recebem pouco para um cargo de tamanha importância e ainda sofrem as pressões citadas acima. Mas mesmo assim continuo achando que deve e pode melhorar.

Até aí tudo bem. Fiz críticas do trabalho feito. E aí? Como deve ser o trabalho lá em baixo?

Apesar de nunca ter trabalhado em categoria de base, sempre acompanhei o trabalho em todos os clubes que trabalhei até agora. Seja aqui no Brasil, no mundo Árabe ou no Japão. Procurei dar a minha visão do que está acontecendo lá nas categorias de base. Não sou o dono da verdade. Para melhorar essa situação vou dar idéias que eu acredito. Os pecentuais são disutíveis e gostaria que outros profissionais da área dessem suas opiniões sem medo de se exporem.

Primeiro precisamos discutir um percentual de treinamento das valências físicas, técnicas e táticas do futebol para cada categoria. Os meus percentuais são estes:

INFANTIL

TÉCNICA 60%
FÍSICA 15%
RECREATIVA 15%
TÁTICA 10%

JUVENIL

TÉCNICA 50%
FÍSICA 20%
TÁTICA 20%
RECREATIVA 10%

JUNIOR

TÉCNICA 40%
TÁTICA 30%
FÍSICA 20%
RECREATIVA 10%

Já convidei por telefone o Carlos César e o Marcos Paquetá, dois dos treinadores que sempre estão dirigindo seleções brasileiras, para se manifestarem. Estou à espera.

Por enquanto vou ficar por aqui e ver se algum dos profissionais da categoria de base se manifesta. Tenho outras coisas prontas para editar, como por exemplo, o conteúdo dos treinos técnicos, táticos, físicos e recreativos, uma ficha de acompanhamento do desenvolvimento de cada atleta com notas de um a dez que podem ser mensais, bimensais, etc. Vou colocar mais tarde no site.

Zé Mario.

 
 
 
 
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